
Da coluna de: José Fucs, colunista do UOL, que publicou:
“A divulgação do diário de Anthony Fauci, líder da ação do governo americano durante a pandemia e principal arquiteto e fiador da política de isolamento social implementada nos Estados Unidos e em outros países, inclusive no Brasil, foi praticamente ignorada por grandes veículos de comunicação aqui e lá fora.
Apesar das revelações devastadoras que vieram à tona, mostrando que os “negacionistas” não estavam tão errados quanto se dizia por aí, quem queria se informar sobre o assunto, como era o meu caso, teve de recorrer às redes sociais —e lá não faltavam informações bem documentadas, que davam uma boa ideia dos acontecimentos e permitiam a formação de uma opinião fundamentada sobre a questão.
Para não passar recibo de que deixou seu público no ar, um jornalão chegou a atribuir as revelações a uma suposta perseguição que Fauci estaria sofrendo do governo Trump. Preocupou-se mais em exaltar sua biografia “a serviço da ciência” do que em abordar a gravidade de suas ações e o que elas nos dizem sobre a gestão da pandemia. Outro grande veículo de comunicação preferiu se concentrar na “desinformação” que prosperou nas redes após a divulgação do diário de Fauci, em vez de focar no teor explosivo do material.
Para não passar recibo de que deixou seu público no ar, um jornalão chegou a atribuir as revelações a uma suposta perseguição que Fauci estaria sofrendo do governo Trump. Preocupou-se mais em exaltar sua biografia “a serviço da ciência” do que em abordar a gravidade de suas ações e o que elas nos dizem sobre a gestão da pandemia. Outro grande veículo de comunicação preferiu se concentrar na “desinformação” que prosperou nas redes após a divulgação do diário de Fauci, em vez de focar no teor explosivo do material.
“Se você faz algo num servidor do governo, pertence ao governo. Ele estava mantendo um diário para o livro que pretendia escrever sobre sua vida. E, ao deixar o cargo, pouco antes de partir, enviou um email de todo o diário para ele mesmo. E foi assim que nós o achamos”, afirmou Kennedy, cuja pasta foi responsável pelo levantamento.
Maquinações sórdidas
Talvez, para muita gente, esse assunto devesse ser jogado debaixo do tapete ou esquecido para sempre, junto com a pandemia que tanta desgraça causou à humanidade. Agora, diante do impacto que ela teve em todo o planeta, causando cerca de 15 milhões de mortes, segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), 700 mil das quais só no Brasil, conforme estimativas oficiais, não dá para deixar isso passar em branco, como se fosse uma abobrinha qualquer.
Não tanto pelo que o diário revela sobre o próprio Fauci: seu narcisismo, sua arrogância, seu apreço pelos holofotes, sua megalomania e suas maquinações sórdidas para encobrir a realidade de forma deliberada e justificar suas decisões controversas. Mas principalmente pelo que expõe sobre suas mentiras, defendidas com veemência em nome da “ciência”; sobre as contradições entre o discurso que ele sustentava em público e o que afirmava nos bastidores; pelos males que suas ações causaram a milhões, talvez bilhões de pessoas em todo o mundo; por suas relações promíscuas com jornalistas que atuavam como meros avalistas de suas iniciativas; e pela perseguição e censura de vozes dissidente.
Também não dá para deixar de falar dos arranhões profundos deixados na imagem de instituições científicas, da academia, da imprensa e até de governos e tribunais, que endossaram e propagaram suas ações e suas narrativas, tratadas como verdades absolutas, das quais eu mesmo fui vítima. Nem das lições deixadas pela forma como se deu a gestão da pandemia no Brasil e no exterior, com base nas políticas que ele defendeu e implementou.
Nas revelações que surgiram a partir dos registros de Fauci, seu maior pecado está relacionado à origem do coronavírus. Em público, ele sustentava a versão, encampada de forma generalizada sem grandes questionamentos nos EUA, no Brasil e pelo mundo afora, de que o vírus tinha surgido de forma natural e foi transmitido aos humanos por meio de animais. Contava para isso com apoio de instituições científicas, cientistas renomados e da mídia, que faziam o seu jogo. Em privado, porém, dizia que possivelmente o vírus tinha vazado do laboratório.
Os cientistas que defendiam a ideia de que o vírus teria vazado de forma não intencional do Instituto de Virologia de Wuhan, na China, onde se realizavam experiências de ganho de função para torná-lo mais infeccioso aos humanos, eram acusados de propagar “teorias conspiratórias”. Tinham a reputação comprometida e tornavam-se alvos de perseguições nas instituições em que trabalhavam. Muitas vezes, perdiam até o emprego.
A certa altura, cidadãos comuns que defendiam a mesma posição nas redes chegaram a ter seus perfis bloqueados por causa disso. No Brasil, eram classificados como “negacionistas” e disseminadores de fake news pelas chamadas “agências de checagem”, que legitimavam os atos de censura promovidos pelas plataformas na época.
Os e-mails de Fauci mostram, no entanto, que ele considerava a hipótese de vazamento do instituto de Wuhan como a mais provável, ao falar sobre a questão com outros cientistas. Ele mesmo havia financiado a pesquisa em Wuhan de forma indireta, fornecendo milhões de dólares do órgão que chefiava ao instituto chinês, por meio da EcoHealth, uma ONG que dizia se dedicar.
Manipulação genética
Na verdade, desde 2010, ele já defendia a manipulação genética de vírus de animais para tentar antecipar o potencial de infecção em humanos. Mas, se admitisse a hipótese de vazamento, temia ser responsabilizado, de alguma forma, pelo surgimento da pandemia. Talvez isso explique, em boa medida, por que ele fez de tudo para propagar a versão de que o vírus surgiu de forma natural.
Só que, como a China destruiu as amostras iniciais do vírus, limpou bancos de dados e bloqueou investigações internacionais independentes, tudo indica que a prova física de que a pandemia foi gerada em laboratório, a partir de perigosas pesquisas feitas em Wuhan, com o apoio de Fauci, jamais aparecerá.
Hoje, a tese da origem natural do vírus perdeu muito de sua força na comunidade científica. Também não há nenhum caso reportado de alguém que tenha contraído o vírus de um animal. Enquanto isso, o FBI e o Departamento de Energia dos EUA, além de virologistas independentes, endossam a ideia de que a origem mais provável do vírus foi no instituto de Wuhan.
Agora, mais chocante do que a postura de Fauci em relação à origem do vírus foi sua posição em relação à eficácia das vacinas contra a covid. Em público, ele sustentava que eram uma panaceia, que impediam a transmissão e a contaminação por coronavírus. Privadamente, como revela seu diário, admitia que elas não impediam nem uma coisa nem outra.
As vacinas contra o coronavírus, é certo, até ajudaram na prevenção de mortes e doenças graves nos grupos de risco (idosos e portadores de comorbidades como obesidade severa, diabetes, imunossupressão e insuficiência renal crônica). Com isso, também contribuíram para reduzir a necessidade de hospitalização.
Ao contrário de vacinas contra pólio e sarampo, porém, que oferecem proteção por décadas ou pela vida toda, elas nunca geraram imunidade esterilizante. Em meados de 2021, pesquisas já indicavam uma queda drástica na proteção da vacina em semanas ou poucos meses após a aplicação. Mais uma vez, Fauci sabia disso, mas de novo omitiu a informação do público.
Jovens saudáveis
Em sua obsessão pela imunização compulsória e universal em doses seguidas, ele rechaçava qualquer argumentação em defesa da imunidade natural adquirida pelos que já haviam contraído a doença, embora e-mails e gravações mostrem que ele e sua equipe estavam cientes da questão.
Ainda que usasse a ciência como escudo para proteger suas deliberações, sua visão não se baseava em evidências científicas. Estudos realizados na época já apontavam que a imunidade por infecção prévia era robusta e duradoura, muitas vezes até superior à imunidade vacinal.
Desde meados de 2020, conforme seus e-mails e registros de reuniões, Fauci e seus colaboradores tinham pleno conhecimento de que crianças e jovens saudáveis de até 19 anos apresentavam um risco extremamente baixo (0,0003% a 0,002%) de desenvolver formas graves de covid ou de morrer por complicações da doença. Pessoas de 20 a 59 anos sem comorbidades, também.
Mesmo assim, ele insistia para que crianças e adolescentes tomassem doses seguidas da vacina, em vez de concentrar a vacinação nos idosos, com mais de 70 anos, cujo risco de morte variava de 5 a 10% ou até mais quando associado a comorbidades. Mas Fauci continuou atuando como o grande articulador do fechamento prolongado das escolas públicas nos EUA, encorajando medidas semelhantes em outros países.
Ele também não teria agido de forma honesta e transparente em relação aos riscos envolvidos nas vacinas mRNA (Pfizer/BioNTech e Moderna), como miocardite e a pericardite (inflamação do músculo e da membrana que envolve o coração), em jovens de 12 a 24 anos do sexo masculino após a segunda dose, apontados por Israel ao CDC em junho de 2021.
Quando os cientistas Martin Kulldorff (Harvard), Sunetra Gupta (Oxford) e Jay Bhattacharya (Stanford) indicaram que eles tinham mais probabilidade de ter miocardite do que de sofrer complicações graves por covid, a resposta de Fauci, comprovada por e-mails trocados com executivos de mídia e plataformas de tecnologia, procurou desqualificar as análises, rotulando-as como “desinformação”. Em vez de reavaliar a estratégia de vacinação universal e focar nos grupos de maior risco, manteve a determinação de que crianças e adolescentes tomassem doses seguidas da vacina.
Invenção arbitrária
Apesar de forçar o uso de máscaras até por crianças de 2 anos e em lugares abertos, como praias e parques, Fauci também admitiu, num e-mail enviado à ex-secretária de Saúde Sylvia Burwell em fevereiro de 2020, que as máscaras comuns compradas em farmácia não eram eficazes para garantir proteção contra o vírus.
Em 2024, em depoimento no Congresso, ele já havia reconhecido que a obrigatoriedade do uso de máscaras em crianças pequenas nas escolas carecia de ensaios clínicos empíricos robustos e que os estudos comparativos eram fracos.
Na ocasião, admitiu também que o tal distanciamento social de dois metros imposto às pessoas para evitar a contaminação não tinha base científica e foi uma invenção arbitrária. Disse que não se lembrava de ter visto estudos que embasassem a medida. “Ela meio que apareceu”, afirmou.
Apesar de negar que recomendou os lockdowns, registros de reuniões e trocas de e-mails entre meados de 2020 e 2021 mostram que, sempre que governadores como os da Flórida e do Texas tentavam reabrir a economia ou suspender restrições, Fauci atuava nos bastidores e junto à imprensa para desacreditar as medidas, classificando-as como “prematuras” e “perigosas”.
Em outubro de 2020, quando Kulldorff, Gupta e Bhattacharya propuseram o fim dos lockdowns gerais e a adoção da “proteção focada”, com isolamento de idosos e liberação dos jovens para trabalhar e estudar, Fauci e seu chefe Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), tramaram por e-mail.
O estrago causado pelas mentiras e manipulações ilimitadas de Fauci na pandemia, adotadas no Brasil como verdades absolutas, deixa lições preciosas para os governantes, o Judiciário, o Ministério Público, a comunidade científica e a imprensa, que ajudaram a propagá-las no país.
Quando a ciência é usada de forma oportunista como instrumento para silenciar, perseguir, ridicularizar e destruir a reputação dos que questionam as narrativas dominantes, classificando-os como “negacionistas” e “propagadores de fake news”, o resultado é a interdição do debate e o comprometimento do espírito crítico da sociedade.
O avanço da ciência se dá pelo contraditório, pelo questionamento das verdades estabelecidas. Tem pouco ou nada a ver com carimbar como “teoria conspiratória” hipóteses plausíveis, como a provável origem do coronavírus em laboratório. Também não tem a ver com abafar questionamentos legítimos sobre a eficácia das medidas restritivas e a falta de transparência sobre as sequelas das vacinas, em nome de uma unanimidade dogmática.
No fim das contas, como mostra o caso de Fauci, o que acontece é que, quando as armações aparecem, quem acaba ficando mal e perde a credibilidade e a confiança popular são justamente os que encamparam os delírios alheios de olhos vendados. Diante de todas as revelações sobre suas ações na pandemia, talvez seja o caso de perguntar a eles: quem são os negacionistas agora?”.
Sobre o autor: José Fucs, colunista do UOL, é jornalista desde 1983. É também colunista do jornal Gazeta do Povo e colaborador da revista Oeste. Foi repórter especial e colunista do Estadão, editor de Economia e repórter especial da revista Época, editor-chefe da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e editor-executivo da revista Exame. Antes, foi repórter da Gazeta Mercantil e da Folha.
Fonte: https://noticias.uol.com.br/colunas/jose-fucs/2026/08/05/no-fim-os-negacionistas-nao-eram-tao-negacionistas-assim.htm







