A prática, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, reduz a concorrência e permite a cobrança de preços acima dos praticados normalmente.
A farinha de trigo está entre os principais alvos das investigações. O Fantástico registrou o movimento em duas empresas investigadas, a Evolução, em Campo Grande, na Zona Oeste, e a Fênix, em Madureira, na Zona Norte, área dominada pela facção Terceiro Comando Puro.
Comerciantes afirmam que eram obrigados a comprar os produtos dessas empresas, muitas vezes em quantidade superior à solicitada e por valores mais altos. Até a qualidade e o preço do pãozinho diário têm sofrido com o domínio das facções.
“Uma farinha de baixa qualidade, que gira em torno de 70 reais, a gente era obrigado a comprar na faixa de R$100 a R$110”, conta um produtor. “No final das contas, o preço do pão francês tem que aumentar para poder alimentar tudo isso.”
Questionados sobre as entregas filmadas pela reportagem, os advogados da empresa Evolução afirmaram que não podem responder por não terem acesso às imagens. “Isso, para nós, é mera especulação”, diz Luis Felipe Vieira, advogado.
A empresa Fênix afirmou ao Fantástico que não possui qualquer vínculo, relação, participação ou associação com facções criminosas ou qualquer organização ilícita e que permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários.
Comerciantes sofrem ameaças e correm riscos
Quem não obedece a determinação pode ser alvo da milícia.
Em março do ano passado, o comerciante Rafael Oliveira Braga foi morto em frente à própria padaria após se recusar, segundo as investigações, a adquirir farinha de uma das distribuidoras ligadas ao esquema. Dois homens apontados como integrantes da milícia foram indiciados pelo crime.
Na última quarta-feira, a Polícia Civil cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em endereços relacionados às empresas investigadas.
Em um dos depósitos, os agentes encontraram produtos fora da validade e prenderam um homem em flagrante. Em outro local, foram identificadas condições precárias de armazenamento, com alimentos próximos a fezes de animais.
As investigações apontam que o controle da venda de produtos gera uma importante fonte de renda para organizações criminosas. Segundo a polícia, os recursos abastecem o chamado caixa de guerra das facções e milícias, usado para compra de armas e manutenção do domínio territorial.
Enquanto isso, comerciantes relatam sensação de impotência diante das ameaças.