Em maio, o Metrópoles noticiou a localização de uma plantação com aproximadamente 30 mil pés de maconha em Virgem da Lapa. No local, os investigadores encontraram bombas de água, estrutura para secagem e beneficiamento, balança de precisão, embalagens e anotações relacionadas à irrigação.
Em outra etapa da investigação, os policiais chegaram a Francisco Sá, no Norte de Minas, onde foram apreendidas cerca de 1,8 tonelada de maconha e localizada uma estrutura utilizada para o cultivo e processamento da droga.
Os casos revelam que não se trata apenas de pequenos agricultores clandestinos. As estruturas encontradas indicam uma cadeia organizada, com produção, irrigação, colheita, armazenamento e preparação para distribuição.
O fator geográfico
Uma das possíveis explicações para a escolha da região está na própria geografia.
O Norte de Minas possui extensas áreas rurais, propriedades afastadas de grandes centros urbanos e regiões de difícil acesso. Para organizações criminosas, esse cenário pode dificultar a localização das plantações e permitir que grandes áreas sejam utilizadas sem chamar imediatamente a atenção.
A presença de sistemas de irrigação também aparece nos casos investigados. Em Virgem da Lapa, por exemplo, os policiais encontraram bombas de água e registros relacionados ao manejo da plantação.
Isso é relevante porque parte do Norte de Minas enfrenta períodos prolongados de estiagem. Para manter uma plantação de grande porte, os criminosos precisam criar estruturas capazes de garantir o fornecimento de água.
No caso descoberto nesta quinta-feira, a PCMG informou que identificou estruturas voltadas ao cultivo em larga escala, reforçando o caráter organizado da produção encontrada em Cachoeira do Pajeú.
Outro elemento que ajuda a compreender o fenômeno é a localização do Norte de Minas.
A região está próxima da Bahia e mantém conexão geográfica com o sertão nordestino, área historicamente associada ao cultivo ilegal de maconha, especialmente o chamado Polígono da Maconha, no entorno do Vale do São Francisco.
Nesta quinta-feira, enquanto a PCMG localizava os 40 mil pés em Cachoeira do Pajeú, a Polícia Federal deflagrou uma nova fase da Operação Colheita Proibida, também relacionada ao combate ao cultivo ilegal da droga. A ação cumpriu 13 mandados de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão na Bahia, em Pernambuco e em Alagoas.
A Justiça determinou ainda o sequestro de cinco imóveis e o bloqueio de até R$ 50 milhões em bens e contas de investigados.
A investigação da PF aponta para uma estrutura criminosa que envolve financiamento do cultivo, tráfico, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro.
Não é apenas uma questão de esconder a plantação
As grandes apreensões realizadas em Minas também mostram que os criminosos estão levando para as áreas rurais uma estrutura de produção.
Em Virgem da Lapa, por exemplo, a polícia encontrou equipamentos para irrigação, secagem e preparação da droga. Já em outros pontos investigados foram localizadas grandes quantidades de maconha já colhida.
Isso significa que a escolha do território pode envolver mais do que simplesmente encontrar um lugar isolado.
É preciso haver água, espaço, acesso e condições para transportar a produção. Uma região rural extensa pode oferecer esses elementos ao mesmo tempo em que dificulta o trabalho de fiscalização.
Cinco plantações no radar da polícia
A descoberta de Cachoeira do Pajeú chama ainda mais atenção porque, segundo a PCMG, é a quinta área de cultivo identificada no curso das investigações.
Além de Virgem da Lapa e Grão Mogol, foram encontradas plantações em Porteirinha e Unaí.
A distribuição geográfica dos municípios indica que o fenômeno não está restrito ao Vale do Jequitinhonha. As plantações aparecem também em áreas do Norte de Minas, o que amplia o território que precisa ser monitorado pelas forças de segurança.
Uma mudança no mapa da maconha
Os casos recentes permitem falar em uma possível expansão territorial da produção ilegal de maconha, mas ainda é cedo para afirmar que o Norte de Minas tenha se transformado em um novo grande polo produtor.
O que já está comprovado pelas operações é que organizações criminosas estão utilizando municípios da região para manter plantações de grande porte e estruturas de beneficiamento.
E há uma característica em comum: o isolamento das áreas rurais aliado à possibilidade de instalação de sistemas de irrigação.
A proximidade com a Bahia e com o sertão nordestino pode ser outro fator estratégico, especialmente para grupos que já possuem conexões com regiões tradicionalmente ligadas à produção da droga.
A operação desta quinta-feira acrescenta um número expressivo a esse cenário: 40 mil pés de maconha encontrados em uma única propriedade.
Enquanto a polícia tenta descobrir quem financia e mantém essas plantações, o Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha passam a ocupar um espaço cada vez mais relevante no mapa das operações contra o cultivo ilegal de cannabis em Minas Gerais. Fotomontagem Gemini. Fonte: https://www.metropoles.com/minas-gerais/maconha-avanca-pelo-norte-de-mg-com-plantacoes-em-larga-escala