SAÚDE

Família denuncia que militar da Marinha de 30 anos passou mal e morreu em piscina de clube do RJ sem salva-vidas

 

Laudo do IML aponta que ele morreu de asfixia por afogamento. Em post, clube negou que militar estivesse dentro da piscina. Após contato do g1, comentário do clube em rede social foi apagado.

Parentes de um sargento da Marinha, de 30 anos, denunciam que ele morreu após passar mal dentro de uma das piscinas do Tênis Clube de Mesquita, na Baixada Fluminense, no último dia 10, e não receber socorro de salva-vidas. Em um post, primeiro o clube negou que a vítima estivesse dentro d’água (veja o print mais abaixo). Depois, apagou a publicação. O caso é investigado pela Polícia Civil.

O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) apontou que Giovani Lima da Silva morreu de asfixia por afogamento.

O militar, que faria 31 anos neste sábado (20), foi aprovado no curso de mergulhadores de combate da Marinha. Ele treinava no clube para fazer o Teste de Aptidão Física (TAF) que aconteceria em março.

 A família afirma que ele passou mal e ficou ao menos 10 minutos debaixo d’água até ser salvo por um segurança. Giovani deu entrada já sem vida na Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) de Edson Passos, em Mesquita, e, segundo parentes, chegou ao local como desconhecido.

“Ele estava muito feliz porque começaria em março no curso. Como ele estava de férias, estava treinando nesse clube. Moramos em Ricardo de Albuquerque, e ele ia todo dia de manhã para o Tênis Clube porque era sócio desde 2023”, conta a gerente comercial Stephanie Cristina Moutinho de Oliveira, de 24 anos, que morava com Giovani há quase 2 anos.

“Eu nunca fui fã desse lugar porque eu sempre achei perigoso e o meu marido sempre falava que as piscinas são fundas. Naquele dia, ele saiu e foi. Quando já estava lá, me mandou uma mensagem dizendo que já estava na piscina”, lembra.

Em uma mensagem enviada às 8h59, do dia 10, Giovani diz para a esposa que já estava entrando na água e escreveu: “Partiu piscina”. Essa foi a última conversa dos dois.

Mergulho livre

De acordo com a cunhada de Giovani, no dia da morte, ele treinava mergulho livre em apneia — que consiste em ficar sob a água apenas com o ar dos pulmões — com uma máscara e nadadeiras. A família afirma que o sargento era experiente e sabia nadar.

“Ele estava com um peso preso na cintura e trainava debaixo d’água. O médico legista disse que ele passou mal, enfartou e morreu no fundo da piscina”, conta a universitária Jéssica Jesus do Nascimento, 25, cunhada do militar.

A família denuncia que no momento do ataque cardíaco sofrido pelo marinheiro, ele estava sozinho e não havia nenhum salva-vidas no local.

“Falaram que ele ficou mais de 10 minutos no fundo da piscina. Foi um segurança que viu e foi correndo salvá-lo. Chamaram a ambulância, levaram para a UPA de Edson Passos, mas ele já estava morto”, relata Jéssica.

Plano de saúde avisou sobre a morte

A mulher de Giovani afirma que, após ser resgatado, ele foi levado sem nenhum acompanhante até a unidade de saúde. Ela conta que foi avisada da morte pelo plano de saúde do militar.

“Estranho é que o clube fez. Eles não entraram em contato. Tinha um cartão de um plano de saúde particular que o Giovani pagava na carteira dele e foram eles que entraram em contato falando que ele tinha sofrido um acidente no clube. O clube ligou para o plano ao invés de ligar para a família”, relata Stephanie Cristina.

Stephanie Cristina disse que o clube alegou que Giovani estava na borda da piscina, passou mal, bateu a cabeça e afundou.

“Eles disseram que ele estava na borda e bateu a cabeça. E cadê os salva-vidas? O laudo diz outra coisa. Ele morreu afogado e ficou muito tempo debaixo d’água. Ninguém salvou. Além do mais, eles colocaram o Giovani em uma ambulância e ele deu entrada na unidade de saúde como homem desconhecido.”

“Esse clube não tem empatia, não prestou solidariedade e no dia seguinte à morte do meu marido postaram nas redes sociais chamando as pessoas para irem para a piscina. É lamentável e desumano”, completa.

O post abaixo foi apagado neste sábado (20) após o contato do g1.

O corpo de Giovani foi enterrado no dia 11 de janeiro, no Cemitério Ricardo de Albuquerque, na Zona Norte do Rio.

A família diz que pretende processar o clube.

Asfixia por afogamento, diz laudo do IML

O g1 teve acesso ao exame de necropsia feito no Instituto Médico-Legal (IML) de Nova Iguaçu. De acordo com o documento, antes de se afogar, o militar teve um infarto do miocárdio.

Ainda de acordo com o documento, o estômago do militar estava “repleto de líquido claro semelhante a água.”

A análise mostrou também que existia líquido semelhante a água no duodeno, que faz parte do intestino delgado. Por fim, a perícia destacou que o homem morreu de asfixia por afogamento.

No entanto, mesmo com o laudo, a direção do clube usou uma rede social para afirmar que ele “não estava dentro da piscina” e que, “portanto, ele não morreu afogado.”

O clube diz que Giovani “estava na área aquática, se sentiu mal e sofreu uma parada cardiorrespiratória”. Ainda segundo o Tênis Clube Mesquita, o militar “de pronto foi socorrido” e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado.

O comentário do clube com a versão sobre a morte do militar também foi apagado neste sábado.

A polícia está enrolando, diz pai

 O segurança Lauriano da Silva, 62, pai de Giovani, diz que já procurou a 53ª DP (Mesquita) duas vezes para prestar depoimento e pedir informações da investigação. No entanto, segundo ele, dez dias após a morte do filho, nenhum parente foi ouvido no inquérito que investiga a morte do militar.

“Cheio de pontos, porque fiz uma cirurgia para a retirada de uma hérnia inguinal, fui a delegacia duas vezes. Mas, até agora a polícia está enrolando para colher o nosso depoimento. É preciso pegar as câmeras de segurança do clube. Quero saber o que aconteceu com o meu filho. Ele amava o mar, amava nada. Estava todo feliz para fazer a prova. Enquanto eu tiver vida vou lutar para o esclarecimento. O Giovani era um exemplo de filho”, desabafa Lauriano.

Procurada, a Polícia Civil disse que o caso foi registrado na 53ª DP (Mesquita) e que foi feita uma perícia no local. A assessoria de imprensa do órgão disse que os investigadores estavam aguardando o resultado do laudo do Instituto Médico-Legal (IML) para determinar a causa da morte. Por fim, a instituição informou que a investigação está em andamento para apurar as circunstâncias da morte.

A Civil não disse se os familiares de Giovani e os responsáveis pelo clube prestaram depoimentos. A corporação também não informou se câmeras de segurança foram recolhidas para análise.

g1 entrou em contato neste sábado (20) com a direção do Tênis Clube de Mesquita. Por telefone, uma secretária informou que “no momento não havia nenhum responsável para falar sobre o caso”.

Até a publicação desta reportagem, nenhum representante do clube havia respondido aos questionamentos da reportagem.

Procurada, a Marinha disse Giovani estava na força armada 2013. A instituição destacou ainda que o terceiro-sargento realizava o exercício físico por conta própria e que “os Testes de Aptidão Física (TAF) somente são realizados nas estruturas das Organizações Militares (OM) da MB, em ambiente controlado, com apoio de profissionais de Educação Física e equipe médica.”

Por fim, a Marinha disse que “está prestando auxílio à família por meio de uma equipe profissional interdisciplinar, desde o ocorrido, bem como estão em andamento os procedimentos administrativos pertinentes, por meio de uma sindicância, para as devidas apurações.”. Foto: Reprodução via G1. Fonte: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2024/01/20/familia-denuncia-que-militar-da-marinha-passou-mal-e-morreu-em-piscina-de-clube-do-rj-sem-salva-vidas.ghtml

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