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ENTREVISTA: Paulinho Pedra Azul, o bom mineiro de belas cantigas

Um dos maiores nomes da MPB, o mineiro Paulinho Pedra Azul fala de sua carreira e e um pouco da trajetória de sua vida.

Além do trabalho na música, o artistas é poeta, escritor e  ator. No total ,  foram 15 livros de poesias publicados (10 são independentes) e um diário escrito em Havana, publicado em 2002. Já contabilizou em venda mais de 100 mil exemplares de livros e, cerca de 500 mil cópias de discos. “Na minha família todo mundo tem um lado meio artístico. Seja nas artes plásticas, na música, na literatura. E tudo contribuiu para a minha formação e resultou no artista que sou hoje”, resume.

Você nasceu em 1954, em uma das regiões mais pobres do país, o Vale do Jequitinhonha. Que memórias você guarda das suas origens?

Pedra Azul: As melhores possíveis. Uma família de oito irmãos, meu pai era fiscal do Estado. Minha mãe, dona de casa, cuidando da filharada. Foi uma infância riquíssima, tomando banho de rio, caçando passarinho (o que é lamentável, mas na época acontecia com qualquer criança).

Tive a oportunidade de andar descalço pelas ruas, o colégio era perto de casa, aquela coisa de levantar às 5h da manhã para fazer educação física. E a nossa segunda mãe, que era a Celina, arrumava a gente, colocava a fardinha (a calça azul ou caqui). São coisas pequenas, mas que marcam. E a gente leva como lembrança, uma coisa gostosa, uma forma de amor, de ser cuidado por várias mães, que era o costume do interior.

Na sua família todo mundo tem um lado meio artístico. Seja nas artes plásticas, na música ou na literatura. De que maneira isso contribuiu na formação do artista que você é hoje?

Pedra Azul: Foi completa a influência de dentro de casa. Meu pai era uma pessoa muito simples, fiscal do Estado, e viajava muito (como todo mundo viajava em determinada época, uns 30, 40 anos atrás).

Havia muitos viajantes no vale do Jequitinhonha, que vendiam remédios, roupas, discos. E meu pai comprava todas as coleções discos. Comprava música italiana, coisas do Pavarotti. A gente escutava do clássico brasileiro ao clássico italiano, francês. Tudo o que meu pai achava interessante, até chegar nessa parte de coleção de Roberto Carlos, Jovem Guarda. Meu pai comprava tudo!

E lá em casa, oito irmãos, virava uma festa só. A minha mãe adorava também, gosta muito de cantar até hoje, e as influências vieram também dos irmãos. O mais velho ganhou o primeiro violão e eu ganhei uma bicicleta (era pra eu ganhar um acordeom).

Viajávamos sempre para Vitória da Conquista, que era a cidade referência para gente, por isso a influência no sotaque, nos costumes. O acarajé, a pimenta e essas coisas todas vieram da Bahia. Meu pai baiano, minha mãe nasceu na divisa. Eu nasci em Pedra Azul, porém fui concebido em Cachoeira do Pajeú, que chegou a se chamar André Fernandes, onde minha mãe nasceu. Minha avó é baiana, meu avô por parte de pai também, então nós temos essa coisa da Bahia muito forte, tanto na educação, quanto nas influências culturais.

Aliás, fui muito influenciado pelo pessoal do norte/nordeste. Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Fagner, Belchior, todo o pessoal do Ceará, Gonzagão, Gonzaguinha, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos. Eu não tive uma influência direta do Clube da Esquina, nem do Rio de Janeiro, mas essa coisa do nordeste foi muito forte em minha casa (…).

Você já foi roqueiro numa banda que se inspirava nos Beatles. Conta pra nós um pouco dessa experiência? 

Pedra Azul: O conjunto se chamava The Giants (Os Gigantes). Eu era o mais velho, o Paul dos Beatles (pois tocava contrabaixo e me chamo Paulo). Tinha o Maurinho que tocava bateria, que seria o Ringo. O Maurinho é o fundador do Sgt. Pepper’s (considerada duas vezes melhor cover de Beatles do mundo).

O guitarrista era o Rogério Braga, que hoje mora em Brasília, um irmão do coração. O outro era o Marivaldo Chaves, que hoje trabalha com ouro, é comerciante.

 Você depende de inspiração para compor e cantar ou quando a inspiração chega ela já te pega trabalhando?

Paulinho Pedra Azul: Já me paga trabalhando. A pessoa que trabalha com cultura (música, poesia, dança, artesanato, pintura, rádio, arquitetura) está sempre preparada para transformar qualquer coisa que a pegue de surpresa em inspiração.

Na minha vida fui sempre assim: espontâneo com as coisas, na minha forma de compor, até na parceria, por exemplo. Sempre compus sozinho no início da minha carreira, por timidez, por achar que minha música era muito simples. Achava que as pessoas mais sofisticadas (no instrumental e na forma de compor) levavam muito a sério.

Eu levava a sério, mas era de uma forma leve. Não adianta forçar a barra para criar, é uma coisa do ser humano, você já nasce com aquilo, tem que ser natural. Sou influenciado pelo papo com as pessoas na rua, pela noite, os encontros com a família (…): aquela alegria, filhos, amigos, sobrinhos, muita comida, muita bebida, às vezes algumas brigas. Tudo isso traz coisas novas, inspirações.

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